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Wednesday, 7 December 2011

From fragment to fragment

Moss Garden, 183 miles to enclosure point

We set out towards the ocean. Now it was the ice that broke beneath our feet and suddenly we were jumping from one ice piece to another. I was completely disoriented. All machines were turned off so we wouldn't be located. But Holy was a cat of refined senses, sometimes he would stretch his head and shook the cold polar wind from his whiskers. His little wet red nose churned before choosing the next fragment of floating ice to jump to.
We jumped to a larger piece in the center where we decided to stay. Here we should be able to camp in safety and get some rest. I removed a capsule and opened it. Within 5 seconds our home was installed. I chose the aspect of an igloo through Holy's drafts in our logbook. He told me that was how a home should look in there. I found it strange cause it didn't look like anything I have seen before. But Holy's face kept quiet as if he knew everything he had to do and nothing was strange, ultimately, as if he was the sole owner of one big secret.
We went inside the igloo and started sleeping. Holy connected the alert system. I did not understand it very well - there was nothing around us, I found myself all alone - but when the alarm system was activated I immediately noticed a huge white hairy head stuck in the narrow entrance of the igloo.
- "Please help me... I know you can hear me! ... Come get me out of here."
- "And why should we do that?" Holy asked.
- "Because if you don't it will be impossible for you to leave, unless you want to go through my mouth. It's very warm inside me, do you want to come? "Said the shaggy head enthusiastically.
Holy and I looked at his huge eyes when we were startled by a noise coming from is stomach.

- "I'm so hungry ... okay I understand that you wont let me eat you but set me free so that I can go hunting please.” 
- "We will set you free." Holy said.
- "But what then?! ..." I asked. "I do not understand how can you trust that hungry head ..."
- "I do not trust him. He's like a bear, and all their good will doesn't matter, their nature will speak louder. So let's open a hole in the ceiling and then when we are away you will remotely disable the capsule."
And so we did. We distance ourselves until Holy ordered me to turn off the capsule. We saw the bear right there in a distance over a raft of ice, then he disappeared into the water.


On a cold day a Bear is lost in his own hunger.
Thus he was born with an extraordinary sense of orientation in space.
Nature works so that we can find ourselves.
Time is always in our favor
even when we flee
from fragment to fragment,
away,
into the icy wastelands.

Tuesday, 26 October 2010

[?] Ep. 3

a 303Km do ponto de Clausura


            Em Nebulosa prosseguiam as alegações e perícias finais em torno do processo de Holy Cat, e este até já tinha, mesmo sem estar ao corrente do que quer que fosse, alguém para o defender frente ao júri. Este tipo de defesa só era permitido a indivíduos com um grau social especial. Na terra, Holy passava ao lado de tudo isto, Nebulosa deixara de existir enquanto realidade concreta na sua mente. Mas por vezes recordava-se e punha-se a pensar e a imaginar Nebulosa. Da mesma forma que em Nebulosa raciocinava sobre mundos longínquos e seres estranhos, secretamente, no seu caixote, quando ainda era o mais respeitado dos gatos Chefes Navegantes.
Assim que viramos costas ao pinguim, o Chefe retirou o seu disfarce humano. O vermelho brilhante ofuscou-me. Holy disse que me habituasse pois daqui em diante não mais usaria tal prótese. Disse que o seu corpo, por si só, estava a responder e a mutar, e que há muito esperava e sabia disto. Holy pedira-me para ler seus apontamentos sobre a terra para que me inteirasse o máximo possível da sua estrutura ético-social, biológica e emocional. Depois de o fazer questionei Holy relativamente à sua aparência, pensei que os humanos se poderiam assustar ao verem um gato de cor vermelha, e ainda para mais um que fala… Holy disse-me: “Aquilo que os humanos vêm só depende deles, do quanto querem ver ou do que querem ver. Quando fecharem os olhos não é um ser vermelho que romperá pelas suas memórias, se assim o permitirem claro. O vermelho é uma ilusão. As palavras são um veículo blindado mas de natureza química instável - sempre em mutação - quando chegam ao ouvido expectante, provavelmente chegam já com outra face. No silêncio, no mais profundo do eu, quando a poeira acalma, não há ouvido nem caminho, são as palavras que vem por vontade própria ter connosco, umas vezes para nos reconfortar da solidão, outras como se nos quisessem matar. Trouxe-te isto de Nebulosa, é um degrau e como tal to ofereço porque te vejo em frente a esse degrau, como se quisesses subir. Porque te sei e porque te trouxe comigo sabendo que sentirias o impulso, preparei-o para ti, pois teus olhos já me contaram a tua história logo no primeiro dia, só tive de a ouvir.”
Recordo suas palavras como uma ave recorda os trajectos migratórios: como se comigo nascessem. Mais tarde descobri que eu nasci através delas. Holy retirou de dentro do seu diário de bordo uma folha solta com uma colecção de palavras ambíguas:
Sonho sempre que haverá algo ou alguém que espera minha chegada a casa. E chego. E no princípio não havia nada. Agora dou de caras com uma amargura que me fica presa à língua, até às entranhas. Estúpidas tripas minhas. Na estrada o sol a morrer no fundo, a cegar-me. Transpiro com o ruído das pedras debaixo dos pés: um crac-craque constante nas sapatilhas e os ossos dos pés por dentro a conversar com a terra. Ainda não descobri onde vou - isso é algo só visível do exterior, como um peixe transparente frente a um espelho – porra não me encontro. Porra procuro desalmadamente. Passa o comboio sem parar, por instantes sirvo-me dessa ideia para entorpecer o espírito: as ridículas tripas de fora e o sangue a jorrar. A alma a abrir o corpo de dentro para fora e os músculos torcidos pela suja passagem. Pensamento lúdico alma mais leve (por isso) mais alta no azul limpo. Azul profundo do oceano. Três minutos para enrolar um cigarro porque faz vento, outros tantos a fumar a meias com ele. Está quase. Com certeza que o futuro se há de mostrar.”
Se algum Júri deitasse mão a isto seria com certeza fatal para Holy, detectava dezenas de infracções ao código de Nebulosa mas meus olhos tinham recolhido algo mais que ainda não identificara. É como se sempre o soubesse e só agora me visse frente a frente com as palavras. Agora a existência era quase palpável. Agora as sensações ganhavam forma. O amor transcendia à sua forma mais concentrada, e na sua essência extrema e densa, aquelas palavras saltaram para a folha através de Holy, sem que fizesse por isso, da mesma forma que agora me entram pelos olhos a dentro. Holy disse-me: “…isso, deixa a tua alma respirar um pouco mais, não a soltes já, está quase.”
Estávamos a chegar perto do oceano, onde as correntes do sul nos deveriam levar onde bem entendessem e onde prosseguiríamos o nosso estudo.


Holy é denso e destilado – a forma concentrada.
Cat cintila como um quasar – um pulsar que te chama de algures.
Holy Cat é uma tenda de sonhos sem tempo de ser - um lugar de reencontro como uma ilha-infância no tempo adulto: um lugar onde pertencemos.
O silêncio. O que somos.
O palco onde a alma pode dançar a seu belo prazer.


Eu no pólo sul sob a forma de Lobo.








[?] Ep. 2

a 452Km do ponto de clausura

  1. Uma ilusão
Planeta “Terra”, Pólo Sul
Assumimos a forma humana e descemos do vaivém. Inicia-mos a caminhada os 5: eu, o Hans, o Franz, o Amílcar e Holy Cat ®. Começamos por procurar vestígios de actividade não casual e indícios de livre arbítrio, tal como nos era pedido na listagem de procedimentos entregues pelo Chefe. Examinava-mos cautelosamente o solo branco luzidio com as super-lentes. Hans reparou numa impressão de massa sobre a neve. Holy aproximou-se de imediato para observar:
     - “Hmmm… parece-me uma pegada.”
     - “Uma quê?!” – perguntei.
     - “Uma PE-GA-DA. É uma marca de acção sobre uma superfície sólida não compacta ou de nível 2-macro. Reflecte a estadia ou passagem de um ser no espaço, e se por ventura se repetir nesse mesmo, indica uma trajectória, ou seja, uma ilusão.
Ficamos presos ao terreno, estáticos e instáveis, a fitar atentamente Holy e a sua explicação repentina. O seu conhecimento dos manuais ultrapassava-nos. Já os tinha-mos lido todos, fazia parte da nossa formação, mas era extraordinária a maneira como ele tinha toda a informação disponível num determinado momento. Não seria nada que um rudimentar processador terrestre não pudesse fazer recorrendo a uma base de memória, mas em Holy havia algo mais: uma interpretação.
Seguimos o rasto na neve. Eram formas semelhantes a triângulos mas recortadas em três pontos na base, e aos pares. Amílcar tinha o rosto humano pesado. Não dizia uma palavra desde que o Chefe explicara o significado destas formas invulgares. Franz parecia preocupado com ele. Toda esta situação era nova e imprevisível para nós. Não houve nada deixado ao acaso nos nossos ensinamentos, excepto o próprio acaso. Novos rastos de pegadas apareciam a convergir com o que seguíamos e não demorou muito até que fossem milhares. Holy andava agora mais depressa, os intervalos na sua respiração eram cada vez mais curtos. Amílcar piorou: começou a mudar de cor. Franz ao reparar nisto parou de frente para ele e ficaram os dois quietos a olharem um para o outro. Isto motivou a paragem do grupo. Holy parou sem se virar. Estava de costas para nós em silêncio. Franz tremia e Hans ajoelhou-se. Amílcar começou a olhar-nos desconfiadamente. Estava totalmente vermelho e sentia-se frágil. De repente começou a correr de volta ao vaivém. Hans e Franz foram atrás dele, Holy rodou a cabeça e disse: “queres voltar à quarentena para que seja tudo como foi um dia em Nebulosa, ou segues as pegadas?”. Fiquei mudo. Não sabia o que dizer. Holy continuava na mesma posição aguardando a minha resposta. “Mas… Chefe… eu, eu…” – disse, incapaz de formar uma frase coerente. Holy sorriu e rodou a cabeça para a frente iniciando a marcha lentamente.


  1. Bom grado

Não sei porque o fiz. Ou não o quero dizer. Mas foi a opção que tomei. Não foi a opção confortável. Não foi o que me ensinaram. Foi o que fiz e foi pelo que paguei. E paguei de bom grado.


  1. A conversa

Forças Especiais fotografadas em Nebulosa (FEN), equipadas com poderosas metralhadoras de raios “gama+7.2Ghz”


O melhor dos navegantes de nebulosa continuou a sua caminhada como se nada fosse. Eu esforçava-me por acompanhar o seu ritmo acelerado. Ouvi o arranque ruidoso do vaivém ao longe no horizonte. Não sabia o que se passara e Holy não me parecia minimamente interessado em saber. O que tinha por certo é que estávamos sem meio de transporte, num planeta praticamente desconhecido mas com vida inteligente, e provavelmente dentro de pouco tempo teríamos forças especiais de Nebulosa no nosso encalço. O frio e os quilómetros feitos a investigar as pegadas tinham-me deixado numa espécie de sonambulismo. As ordens que me eram endereçadas eram executadas fazendo o menor uso cerebral possível, e todas as sobras do intelecto caíam nas interpretações da experiência e na compreensão das palavras de Holy Cat. Este estava agora tão vermelho que emitia uma luz própria, florescia numa paisagem de candura e solidão gélida, ainda assim tão seguro de si próprio que tinha uma expressão utópica congelada na face cheia de bigodes.
De um momento para o outro as pegadas desapareceram diante os nossos olhos. De milhares de marcas não se vislumbrava nem uma sequer. Holy e eu observava-mos o solo estupefactos quando ouvimos um som vindo de trás de uma rocha:

     - “Hrrrrr!...”
     - “ ?!!!”
     - “Visitantes de outro mundo…” – disse e saiu de trás da rocha, “…voltai para trás de onde os sonhos vos trouxeram por via de pensamentos conscientes ou por via incerta, este é o planeta terra.”
      - “Quem és tu? O que dizes?” – perguntou Holy. 
     - “Nós somos os defensores deste corpo celeste, por isso habitamos esta entrada. O meu nome é Corcódias e sou o sétimo na descendência de uma longa linhagem secular de guardiões.”

E continuou com um longo monólogo agitando uma espécie de barbatanas-asa que tinha em vez de braços. Depois disse-nos que na terra os chamavam de “Pinguíns” e que só se deixavam ver no Hemisfério sul para poderem controlar melhor todas as entradas dando o menos possível nas vistas. Contou-nos que em pequeno um barco se afundara ao longo daquela costa de gelo maciço e que largara um rasto de sangue negro que apanhou muitos peixes e que por isso se viram forçados a voar às escondidas até África para caçarem, correndo aquele que foi o maior risco de sempre na história dos guardiões Pinguíns. Perguntei de quem se escondiam e porquê. O animal olhou-me nos olhos e fez um periodo de silêncio.
     - “Por causa dos homens… são demasiado inseguros e frágeis e por isso tem de pensar que na ordem natural são os primeiros.”
     - “ E porque os protegem vocês?” – perguntou Holy.
     - “Nós protegemo-nos a nós mesmos, o homem decide o seu grau de envolvimento. Quando nascem, é lhes dado tudo, muito mais do que alguma vez um guardião teve. Depois a infância foge-lhes e com ela o seu senso. São como robots coleccionadores. No entanto, já o meu Avô guardião Pluma de Neve dizia que haviam humanos que para não perderem aquela oferta dos céus, a guardavam numa caixinha e a escondiam num lugar seguro… nunca nenhum de nós encontrou tal caixa, mas o mito, tal como todos os verdadeiros sonhos, persiste. “
Os olhos de Holy iluminaram-se ao ouvir aquelas palavras, sorria silenciosa e constantemente, e projectava a sua imagem vermelha na neve. O pinguim fitou-o e pediu-lhe que aguardasse. De baixo de uma asa retirou um pedaço de papel com desenhos e indicações para Holy.
     - “Então tu és o ser de luz própria, a roda que gira pelo seu mesmo movimento, o pêndulo contínuo. Toma isto, esperamos muito tempo por ti.”
     - “Também esperei muito. Agora chegou a hora.” – disse Holy Cat e guardou o papel na sua bolsa enquanto nos preparava-mos para recomeçar o trajecto, fosse para onde fosse.

Estávamos no Pólo Sul, sem direcções, sós num manto branco, e Holy radiava intensamente.


Estivemos numa imensidão gelada, um lago cristalino da memória, e nesses dias a sós, o mundo não era nada e o número que fazíamos cintilava intensamente, como uma estrela, como um quasar, pulsando energia através do espaço,

e através do tempo.


...

Monday, 25 October 2010

[?] Ep. 1



Departamento Jurídico de Nebulosa, Central nº 4

Nebulosa, 177 Z/C1 A3 10h 30min
Departamento Jurídico de Nebulosa
Central nº 4



O grupo de técnicos de júri vem por este meio tornar público o processo instaurado ao cidadão de Nebulosa nº 10034DF-3987013/JK25 denominado por “Holy Cat ®”. Possuidor do título de Chefe Navegante Intergaláctico por provas prestadas e avaliadas à luz dos padrões de efectividade para cargos de Nebulosa.

Declara-se inapto para toda e qualquer função social o cidadão acima citado, por tempo indefinido ou até prestar provas médicas ou de qualquer outra tipologia que se entenda necessária, a serem apresentadas perante este júri e carecendo do visto jurídico do mesmo e respectiva aprovação.

O indivíduo em questão ocorre ainda em pena a determinar pelo júri, as causas não serão tornadas públicas de forma a garantir a segurança e viabilidade do processo (manual cap.345/B p.31).

É obrigação, repito: OBRIGAÇÃO de todo e qualquer cidadão maior de idade que goze de protecção jurídica do Departamento central nº4 de Nebulosa, informar este organismo se obtiver qualquer informação relativa a este processo ou ao indivíduo acima citado. A omissão de dados ou eventos relacionados com tal situação está sujeita a acção penal.

Aspecto do indivíduo nº 10034DF-3987013/JK25

Regulamento:
- Uso de força não autorizado
- Recompensa até 50.000.000 Gil
- Data limite: indefinida

- Contactar júri em:
Central 4 Nebulosa 675H nº78
Frequência 234.9901 kHz